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segunda-feira, 25 de maio de 2009

Busca Silenciosa

Trago a vós um poema belíssimo que me foi mostrado pelo próprio autor, que prefere ficar anónimo.
    Amor,
    quão belo é esse sorriso
    que guardas dentro de ti
    que de tão leve,
    tão doce,
    tão altivo
    faz os ceus e as terras estremecerem.

    Amor,
    qual a fonte de tanta simpatia
    que espalhas pela terra
    pelos mares
    pelos oceanos


    Numa ansia terrena
    almejo sentir
    sem medo, sem receio algum de cair
    somente
    para sentir o odor dessa bela rosa
    que guardas dentro de teu peito
    e que me faz prosseguir.


    Porque no fim,
    apenas escolhes-te o amor e uma rosa.

domingo, 20 de julho de 2008

Pigmaleão

Nos tempos imemoriais, celibatário em Chipre
Ele, Pigmaleão, isolado pela sua vontade
Esculpiu pelo ardor das suas mãos a mais bela
Das mulheres deste mundo, ela Galatéia
Fruto das suas mãos e dos seus esforços
Vivificada pelo alento condoído dos deuses.
    A noite é quente, é sufocante
    E só há o barulho noturno aqui e acolá
    E eu novamente sozinho, entre tantas ilusões
    E eu só posso te tocar pelas tuas imagens
    Que dançam diante da minha parca visão.

    Lembrar de ti, dos momentos juntos
    Onde estarás, onde estarão teus pensamentos ?
    Será que recordas acaso de mim ?
    Será que posso pensar em olhar pela janela
      Do futuro ?

Mil dias e mil noites, ele Pigmaleão
Com o esforço de suas mãos, produziu e modelou
Cada curva, cada sinuosidade, cada beleza e pureza
E já cansado, e já iludido, apaixonado
Adormeceu entre suas ferramentas
E a deusa compadecida, transformou o mármore
Em carne e osso.

Ele, Pigmaleão de Chipre, apaixonado pela estátua
Agora teria uma mulher real a dedicar o seu afeto
Mas a pergunta que não se cala ao peito do poeta:
A estátua acaso amaria Pigmaleão ?
Ou não poderia dedicar suas doçuras e carícias
A outro, que não se esforçou nem se esmerou
Que desconheceria as origens de Galatéia ?
    Será que olhando para a janela do amanhã
    Posso achar que o amanhã é meu ?
    Otimista, como se nada ou ninguém
    Pudesse me arrancar deste paraíso ?
    Teus pensamentos talvez nem sequer me cogitam
    Eu olho para ti, e teus olhos te desviam para [o] outro.

    E hoje estou aqui só, sozinho, só [sempre]
    Olhando para uma imagem, que insiste em sorrir
    De um passado [futuro ?] esquecido
    De uma mão acenando ao longe
    De um beijo que não insiste em se apagar
    E o nosso destino tornou-se apenas
    Um sonho.
R. S. P.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Katrina

Peço licença ao Álvaro para postar um texto dele aqui no meu blog. (o Texto também pode ser encontrado no Horus, o blog dele)
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Katrina é alguém que mal começou a amar e já teve que aprender a sofrer.
E porque ainda sofre, derrama-se em poemas lacrimais escritos por poetas de priscas eras. Porque, afinal, os poetas servem justamente pra isso. Para falar por nós. Para dizer o que sentimos, mas não sabemos dizer. Ou não queremos dizer com nossas próprias palavras, seja por prudência ou por pudor.

"Meu corpo está sofrendo
é grande a minha dor,
eu vou enlaguescendo...
Rendo-vos mil graças, meu Senhor".

Quando envolta em panos de luto, onde se confunde o negro de seus cabelos, Katrina tem ar de Monastério, com sua antiguidade hierática, por cujos corredores, estreitos e sombrios, ela evoca as lembranças mais sentidas, na esperança de, a qualquer momento, abrir-se a porta de uma cela, e dela surgir o Monje (anjo) que a conduzirá ao Paraíso.

"Conturbam-se meus olhos,
meu mundo perde a cor,
minh´alma está confusa...
Fustigai-me, meu Senhor!"

Mas Katrina sabe que, a essa hora, o Monje está em outro Monastério, para onde o conduziu sua vocação teológica mais autêntica. Que resta, então, a essa moça que o ideal da Justiça trouxe de Veneza, senão resignar-se? Afinal, ela precisa de pouco. Como Lutero, basta-lhe um Livro, de cujas páginas emergem histórias trágicas e amargos profetas.

"Meu Deus, abrí-me as portas
da eterna servidão,
lançai-me vossa cólera
no Templo de Sião!"

Um dia, Katrina irá descobrir que ela é maior do que um livro. Porque é um ser vivo, pulsante, expressão sublime de um processo que se desenvolve por toda a Eternidade, nesse imensurável canteiro de obras da Criação.
Nesse dia, as portas do Monastério se abrirão e ela sairá para cultuar Apolo (o sol), deixando atrás de si o casarão sombrio, com seu livro, monges e profetas.

Alvaro Pacheco Rodrigues

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Reticências...


(Aviso Prévio: Relembrar é preciso... Já diria o poeta... por isso aqui está a minha primeira poesia escrita [Sim... encontrei-a perdida entre um monte de arquivos...] e aqui está ela!)


A nossa vida deveria ser perfeita
Mas nós sempre teimamos em desobedecer...

O nosso primeiro encontro foi marcado
(E tinha tudo para ser perfeito!)
Mas nós teimosamente, não o quisemos cumprir-
Ao invés disso resolvemos nos conhecer
Antes mesmo de nos ver.


As nossas conversas tinhas tudo para serem perfeitas
(Mas por algum motivo inexplicável)
Nós não conseguimos conversar!-
E quando o conseguimos, algo sempre
Nos faz tremer ao falar.


Nós deveríamos ser os melhores amigos
(Daqueles que sabem tudo um da vida do outro)
Mas – cedendo a nossa teimosia –
Resolvemos nos apaixonar!

E então resolvemos dar ouvidos à razão
(Pelo menos uma vez sequer)
E decidimos que nosso amor era
Impossível – então você disse Adeus...


Mas... Antes de nos separamos...
Porque não podemos ter segundos encontros?
Porque não ligamos um para o outro novamente?
O que há de errado em apaixonar-se?
E... Porque seu Adeus tem três pontos no final?


(Béria Lima - escrito em 04/06/06)

sábado, 1 de dezembro de 2007

Poesia de Béria

Verso Matinal

Era um riso e um mundo aquele
Olhar. E como um manto
Me enrubescia a pele
Tanto, tanto.

E, a cada gota, a chuva vinda
Precipitava o espaço
E me amparava ainda
O passo, o passo.

Caída a noite, o céu reclama
O pomo frutuoso:
Corpo desnudo, cama,
Gôzo, gôzo.

E, letra a letra, a palavra
Encontra-me submerso
E, em seu caminho, lavra
O verso, o verso.

Um verso lido em tom veloz
Que despe-me a matéria
E encontra a face, após,
Séria, séria.

E chama-me, num ponto, a voz...
Béria, Béria.

(Christian Bitencourt)

sábado, 24 de novembro de 2007

Conto



(Antes... explicação previa: O conto não foi escrito por mim... e sim para mim!)

Aliocha arranjara um jeito de escapar dos livros. Um passe de mágica, um feitiço antigo, não se sabe como. Mas ele arranjara um jeito de escapar. E, agora, andava pelas ruas de Moscou, tentando se encontrar.

Ele ouvira falar da libertação de Katrina. Também ela não estava mais presa às letras. Um passe de mágica, um feitiço antigo, não se sabe como. Mas Katrina já andava, solta, pelas esquinas de Moscou há pelo menos dez meses. E isto não podia ser coincidência.

Encontraram-se, um dia, numa biblioteca. Aliocha via Katrina, mas não a reconhecia. Talvez sua memória tivesse ficado presa numa orelha encardida de livro velho. Mas ele não precisava reconhecê-la. O encanto foi o bastante.

Katrina também era iniciada nos mistérios do monastério, mas era muito dona de si para se enquadrar em normas com as quais não concordava. O curioso é que Katrina dizia ser uma mulher da lei, e que as normas só devem ser alteradas por quem de direito. Ou a lógica não fazia sentido no mundo dos personagens que escapam da ficção, ou ela é quem era a autoridade de direito em questão, ou apenas discordava pelo prazer de discordar. O diabo é que Katrina ficava linda quando discordava. Na verdade, Aliocha descobrira muito cedo, Katrina ficava linda de qualquer jeito.

Aliocha, que antes ia à biblioteca para continuar seus estudos, passou a freqüentá-la na esperança de rever Katrina. Afinal de contas, de que valiam tantos livros à mostra se logo ali, em frente, estava aquela mulher? Katrina era inteligente. O jovem russo perguntava-se, vez por outra, se havia algo que ela não soubesse. É óbvio que havia. Mas ele gostava de imaginá-la como um daqueles livros em francês, que se importavam do sul de Paris. Cheia de mistérios a serem descobertos. Página a página.

Num outro dia, após as idas e vindas livrescas, Aliocha convidou Katrina para almoçarem juntos. E ela aceitou. E eles lá se foram. E, enquanto ela discorria sobre teorias do fim do mundo, o fracasso de Danton e a febre recorrente do czar, ele ria-se por dentro. De prazer. E, enquanto ele repetia as mesmas piadas velhas de monge, ela também sorria. Só que para fora mesmo. E Aliocha delineava, traço a traço, em sua retina, o sorriso de Katrina. E fixava-se em seu olhar, também.

O olhar de Katrina merecia um parágrafo à parte. Seus olhos eram negros, como num poema de Joukovsky. Corria, à boca miúda, uma lenda sobre eles. Teria sua mãe sussurrado um encanto das estepes, quando ainda estava de barriga, com o intuito de que sua filha nascesse com o olhar enfeitiçado. Não era, pois, à toa a devoção da mãe de Katrina por seus olhos. E nem sem sentido o hábito, já desde a tenra infância, de se cultivar uma franja sobre o olho esquerdo. Esquerdo, como é próprio das bruxas. Uma coisa, porém, é certa: Aliocha não precisou conhecer a lenda para ter a certeza, de imediato, sobre o feitiço no olhar de Katrina.

Em noite de chuva, lua escondida, Aliocha e Katrina passearam pelas ruas e esquinas de Moscou. Juntos. E deitaram a falar, passo a passo, sobre todos os assuntos do universo. Sobre como escaparam, sem saber, do mundo dos livros. E sobre que magia fascinante resultaria da mestiçagem entre germânicos e índios americanos. Não foram poucas as vezes em que Aliocha se perguntou porque passara tantos anos sem esta surpresa. E compreendeu, de súbito, a guerra entre Dimitri e Ivan.

Katrina não dizia sim. Sorria, ralhava (mais ralhava que sorria), mas não dizia sim. Derramou diante de Aliocha, como óbice, seus votos monásticos ainda não desfeitos. Mas que diabos, pensava o jovem, que diabos! Aliocha já deixara de ser monge há muito tempo. Mesmo quando ainda recitava as orações, num eslavo esquecido, aos pés de mestre Zózima.

Aliocha lhe pedia um beijo, mas Katrina não dizia sim. Ele beijou seu rosto. Mas Katrina não dizia sim. Ele o fez de novo, e de novo, e de novo. Ousou enfrentar o medo do feitiço e beijou-lhe o olho (e carrega a impressão deste olho em sua boca até este exato momento – é o que dizem). Mas Katrina, insistente, não dizia sim. E foi aí que Aliocha sorriu. Sorriu porque já tivera, ainda que por segundos, a pele de Katrina em seus lábios. E, como mestre Zózima, em transe místico, sempre dizia, sábio é quem espera. Concordo, pensou Aliocha, ma non troppo.

Cedo, cedo, pouco tempo fora dos livros, Aliocha percebeu que mestre Zózima não era tão sábio quanto parecia. E ali, no compasso inevitável das horas, na espera nervosa pela carruagem, na água de chuva a molhar rostos, cabelo e almas, um beijo furtivo nasceu. Construído aos poucos, entretecido de respiração e toque, cresceu em silêncio. E naquele exatíssimo instante, Aliocha descobriu que havia uma diferença entre o mundo de dentro e o de fora dos livros. O mundo exterior possuía muito mais histórias a serem contadas. E, de novo, naquele exatíssimo instante, com sua Katrina frente a ele, em terra molhada, Aliocha decidiu que não voltaria à Moscou das letras. Já passara o tempo de ser personagem. Era preciso escrever sua própria história.

(Christian Bitencourt)