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sexta-feira, 24 de setembro de 2010

A um Amigo...

Fiel ao costume antigo,
Trago ao meu jovem amigo
Versos próprios deste dia.
E que de os ver tão singelos,
Tão simples como eu, não ria:
Qualquer os fará mais belos,
Ninguém tão d'alma os faria.

Que sobre a flor de seus anos
Soprem tarde os desenganos;
Que em torno os bafeje amor,
Amor da esposa querida,
Prolongando a doce vida
Fruto que suceda à flor.

Recebe este voto, amigo,
Que eu, fiel ao uso antigo,
Quis trazer-te neste dia
Em poucos versos singelos.
Qualquer os fará mais belos,
Ninguém tão d'alma os faria.

Almeida Garret
Poema "A um amigo" do livro Folhas Caídas (1853)

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Amiga

Deixa-me ser a tua amiga, Amor,
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor,
A mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti, me venha mágoa e dor
O que me importa a mim?! O que quiseres
É sempre um sonho bom! Seja o que for,
Bendito sejas tu por mo dizeres!

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho...
Como se os dois nascêssemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho...

Beija-mas bem!... Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos
Os beijos que sonhei pra minha boca!...

Florbela Espanca
Poema "Amiga" in Livro das Mágoas (1919)

terça-feira, 30 de março de 2010

Saudades

Saudades! Sim... Talvez... e porque não?...
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?... Ah! como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o pão!

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!

Florbela Espanca
Poema "Saudades" in Livro de Sóror Saudade (1923)

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Aonde?...


Ando a chamar por ti, demente, alucinada,
Aonde estás, amor? Aonde... aonde... aonde?...
O eco ao pé de mim segreda... desgraçada...
E só a voz do eco, irônica, responde!

Estendo os braços meus! Chamo por ti ainda!
O vento, aos meus ouvidos, soluça a murmurar;
Parece a tua voz, a tua voz tão linda
Cantando como um rio banhado de luar!

Eu grito a minha dor, a minha dor intensa!
Esta saudade enorme, esta saudade imensa!
E Só a voz do eco à minha voz responde...

Em gritos, a chorar, soluço o nome teu
E grito ao mar, à terra, ao puro azul do céu:
Aonde estás, amor? Aonde... aonde... aonde?...

Florbela Espanca
Poema "Aonde?..." in O Livro D'Ele (1915)

domingo, 31 de maio de 2009

Canção

Hoje venho dizer-te que nevou
no rosto familiar que te esperava.
Não é nada, meu amor, foi um pássaro,
a casca do tempo que caiu,
uma lágrima, um barco, uma palavra.

Foi apenas mais um dia que passou
entre arcos e arcos de solidão;
a curva dos teus olhos que se fechou,
uma gota de orvalho, uma só gota,
secretamente morta na tua mão.

Eugénio de Andrade
Poema "Canção" do livro As Palavras Interdidas (1951)

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Busca Silenciosa

Trago a vós um poema belíssimo que me foi mostrado pelo próprio autor, que prefere ficar anónimo.
    Amor,
    quão belo é esse sorriso
    que guardas dentro de ti
    que de tão leve,
    tão doce,
    tão altivo
    faz os ceus e as terras estremecerem.

    Amor,
    qual a fonte de tanta simpatia
    que espalhas pela terra
    pelos mares
    pelos oceanos


    Numa ansia terrena
    almejo sentir
    sem medo, sem receio algum de cair
    somente
    para sentir o odor dessa bela rosa
    que guardas dentro de teu peito
    e que me faz prosseguir.


    Porque no fim,
    apenas escolhes-te o amor e uma rosa.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Despedida...

Povo de Orfalés, o vento leva-me a deixar-vos.

Sou menos apressado que o vento, no entanto devo ir.

Nós, os errantes, sempre em busca de caminhos solitários, não acabamos um dia onde o tivermos começado; e nenhum nascer do sol nos encontra onde o pôr do sol nos encontrou. Viajamos mesmo enquanto a terra dorme. Somos as sementes da planta perene; e é na maturidade do nosso coração e na sua plenitude que nos entregamos ao vento.

Breves foram os meus dias entre vós, e ainda mais breves as palavras que preferi. mas se acaso a minha voz desaparecer dos vossos ouvidos e o meu amor se desvanecer na vossa memória, então eu voltarei. Sim, eu voltarei com a maré, e, embora a morte me possa esconder e o grande silêncio envolver-me, na mesma procurarei a vossa compreensão. E não será em vão essa procura.

Vou com o vento, povo de Orfalés, mas não vou no vazio, e se este dia não é o preenchimento dos vossos desejos e do meu amor, então deixai que seja uma promessa para outro dia.

As necessidades do homem mudam, mas não o seu amor, nem o desejo de que o seu amor satisfaça as suas necessidades. Ficai a saber que, do grande silêncio, eu voltarei.

Eu dei-vos menos que uma promessa, e no entanto, fostes bem mais generosos comigo.Destes-me a minha mais profunda sede da vida. Não existe maior dádiva para um homem do que aquela que transforma todas as suas metas em lábios ardentes e a vida numa fonte. E é aqui que está a minha honra e a minha recompensa, pois quando eu vier beber à fonte encontrarei a água viva também sedenta; E beber-me-à enquanto eu a beberei.

Alguns de vós acharam-me orgulhoso e tímido para receber as vossas oferendas. Sou na verdade demasiado orgulhoso para receber dinheiro, mas não dádivas. E embora tenha comido bagas no meio das colinas, enquanto vós terieis preferido que me sentasse ao vosso lado, e dormido à porta do templo quando me teríeis acolhido de bom grado no vosso lar. No entanto, não foi o vosso carinhoso interesse pelos meus dias e pelas minhas noites que tornou os alimentos doces na minha boca e encheu o meu sono de visões?

Por tudo isto vos abençoo: Vós dais tudo sem saber que estais a dar. Na verdade, a bondade que se olha ao espelho transforma-se em pedra, e uma boa acção que se chama a si mesma belos nomes torna-se uma praga.

E alguns de vós chamastes-me distante, embriagado com a minha própria solidão, e dissestes, "Ele fala com as árvores da floresta mas não com os homens. Ele senta-se sozinho no topo das colinas e olha cá para baixo para a cidade." A verdade é que subi às colinas e andei por locais remotos. Como poderia ter-vos visto senão de uma grande altura ou de uma grande distância?

Como se pode estar perto se não se estiver longe?

Pois quando as minhas asas se abriram ao sol, a sua sombra na terra foi uma tartaruga. E eu, o crente, também fui o descrente; Muitas vezes coloquei o dedo sobre a minha própria ferida para ter mais fé em vós e maior conhecimento de vós.

Se estas forem palavras vagas não procureis clarificá-las. Vago e nebuloso é o inicio de todas as coisas, mas não o seu fim, e eu gostaria que me lembrasseis como um princípio.

É isto que eu gostaria que recordasseis quando vos lembrardes de mim: Que aquilo que parece mais fraco e débil em vós é o mais forte e mais determinado.

Adeus, povo de Orfalés.

Este dia chegou ao fim.

Fecha-se sobre nós como o nenúfar sobre o seu próprio amanhã. Aquilo que nos foi dado aqui, conservaremos, e se não for suficiente, então teremos de nos juntar novamente e estender as mãos ao doador. Não vos esqueçais que voltarei para junto de vós.

Adeus a vós e à juventude que passei convosco. Foi só ontem que nos encontrámos num sonho. Cantástes para mim na minha solidão, e dos vossos desejos construí uma torre no céu. Mas agora o nosso sono voou e o nosso sonho chegou ao fim e já não é aurora. O meio dia está sobre nós e o nosso meio despertar tornou-se pleno dia e devemos separar-nos. Se no crepúsculo da memória nos encontrarmos mais uma vez, voltaremos a falar e cantareis para mim uma canção mais profunda...


(extraído do livro "O Profeta" do autor libanes Khalil Gibran)

domingo, 5 de abril de 2009

Madrigal


Tu já tinhas um nome, e eu não sei
se eras fonte ou brisa ou mar ou flor.
Nos meus versos chamar-te-ei amor.

II

Cantas. E fica a vida suspensa.
É como se um rio cantasse:
em redor é tudo teu;
mas quando cessa o teu canto
o silêncio é todo meu.

Quase Madrigal

Os anjos que prometes são apenas
o rosto triste dos dias desolados.
Eu não prometo nada, sou alegria.
Aceito os anjos nos beijos que me dás,
pondo rosas nos teus dedos descuidados.


Eugénio de Andrade
Poemas "Madrigal" e "Quase Madrigal"

quarta-feira, 11 de março de 2009

Cantos indecisos

    Amo-te e não te vejo;
    Nunca te vi, amor...
Muito embora te abrace minha dor;
O fantasma ao luar do meu desejo...
    Só ele te conhece
E divaga na noite que te esconde;
    Noite sem fim, lá onde
Numa estrela se muda cada preçe.
Só ele te contempla o etéreo rosto,
Moldado em oiro e bruma do sol posto;
    Lágrima sempre acesa
No crepúsculo roxo da tardinha...
É assim que me desejo te advinha
    Em longes de tristeza.
Que o meu desejo é a sombra do meu ser
    Errando, a padecer,
    Lá onde tu existes,
Tão viva que és apenas sentimento,
    Ideal deslumbramento,
E uns grandes olhos negros sempre tristes...

Teixeira de Pascoaes
Poema "XXXIV" do livro Cantos Indecisos (1921)

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Ser Poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhas de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dize-lo cantando a toda a gente!

Florbela Espanca
Poema "Ser Poeta" in Sonetos Completos (1934)
(Uma versão deste poema cantado por Sara Tavares e Nuno Guerreiro, pode ser ouvida nesta página)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

As Palavras Interditas

Os navios existem e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E abrem-se janelas
mostrando a brancura das cortinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas minhas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
e estas mãos noturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens vivas, desenhadas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

Eugénio de Andrade
Poema "As Palavras Interditas" in As Palavras Interditas (1951)
(Esse poema pode ser ouvido nesta página)

Língua Portuguesa

Última flor do Lácio, inculta e bela,¹
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

Olavo Bilac
Poema "Língua Portuguesa" in Tarde
(Esse post é parte complementar desta reflexão)
____________
1. "A expressão "Última flor do Lácio, inculta e bela" é usada para designar a língua portuguesa, considerada a última das filhas do latim (que nasceu na região do Lácio, na Itália, por isso "flor do Lácio"). O termo inculta fica por conta de todos aqueles que a maltratam ao falar e escrever de forma incorrecta, mas que não a tornam por isto menos bela."

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Os Teus Olhos

Gosto de ti 
Não por seres linda ou por seres feia. 
Gosto de ti 
Pela cor indefinida dos teus olhos 
Na qual há uma mistura de todas as cores. 

 Nem sei mesmo se gosto dos teus olhos 
Mas gosto de ti, 
Por seres a dona de tais olhos. 
 
Gosto de ti 
Pela cor garça dos teus olhos ... 
 Nem azuis, nem verdes, nem cinzentos ... 
De uma luz vaga, indefinida, incerta, 

Como incerta e indefinida e vaga 
 É a minha vida 
E a vida de toda a gente 
Na hora que passa. 

 E é por isso, 
Por essa identificação da minha vida 
Com a cor incerta dos teus olhos, 
 Que eu gosto de ti. 

António Gouveia 
(Esse poema pode ser ouvido na voz de Luís Gaspar nesta página)

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

As Palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam;
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade
Poema "As Palavras" in Coração do Dia (1958)

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Sonhos

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista...

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.


António Gedeão
Poema "Pedra Filosofal''" in Movimento Perpétuo (1956)

domingo, 20 de julho de 2008

Pigmaleão

Nos tempos imemoriais, celibatário em Chipre
Ele, Pigmaleão, isolado pela sua vontade
Esculpiu pelo ardor das suas mãos a mais bela
Das mulheres deste mundo, ela Galatéia
Fruto das suas mãos e dos seus esforços
Vivificada pelo alento condoído dos deuses.
    A noite é quente, é sufocante
    E só há o barulho noturno aqui e acolá
    E eu novamente sozinho, entre tantas ilusões
    E eu só posso te tocar pelas tuas imagens
    Que dançam diante da minha parca visão.

    Lembrar de ti, dos momentos juntos
    Onde estarás, onde estarão teus pensamentos ?
    Será que recordas acaso de mim ?
    Será que posso pensar em olhar pela janela
      Do futuro ?

Mil dias e mil noites, ele Pigmaleão
Com o esforço de suas mãos, produziu e modelou
Cada curva, cada sinuosidade, cada beleza e pureza
E já cansado, e já iludido, apaixonado
Adormeceu entre suas ferramentas
E a deusa compadecida, transformou o mármore
Em carne e osso.

Ele, Pigmaleão de Chipre, apaixonado pela estátua
Agora teria uma mulher real a dedicar o seu afeto
Mas a pergunta que não se cala ao peito do poeta:
A estátua acaso amaria Pigmaleão ?
Ou não poderia dedicar suas doçuras e carícias
A outro, que não se esforçou nem se esmerou
Que desconheceria as origens de Galatéia ?
    Será que olhando para a janela do amanhã
    Posso achar que o amanhã é meu ?
    Otimista, como se nada ou ninguém
    Pudesse me arrancar deste paraíso ?
    Teus pensamentos talvez nem sequer me cogitam
    Eu olho para ti, e teus olhos te desviam para [o] outro.

    E hoje estou aqui só, sozinho, só [sempre]
    Olhando para uma imagem, que insiste em sorrir
    De um passado [futuro ?] esquecido
    De uma mão acenando ao longe
    De um beijo que não insiste em se apagar
    E o nosso destino tornou-se apenas
    Um sonho.
R. S. P.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Ligações


Compreendamo-nos sempre...
Eu aqui... e você acolá
Onde moro...
e onde seu travesseiro lhe faz ninho .
Quando é noite aí
também escurece aqui na minha paisagem


O fio invisível que nos liga
nos circunda e nos amarra
e as nossas almas,
antes tão soltas,
tão perdidas de nós mesmos

Agora unidas em um mundo que não vemos
mas que pressentimos...

E que é tão presente nas palavras
que o vento infla
e o tempo não desgata...

(publicado originalment no Béria - a Beh)

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

O Tempo e o Amor

(Sermão do Mandato (1643), fragmento)

Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera!

São as afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar pouco, que terem durado muito. São como as linhas que partem do centro para a circunferência, que, quanto mais continuadas, tanto menos unidas.

Por isso os antigos sabiamente pintaram o amor menino,
porque não há amor tão robusto, que chegue a ser velho.
De todos os instrumentos com que o armou a natureza o desarma o tempo.
Afrouxa-lhe o arco, com que já não tira,
embota-lhe as setas, com que já não fere,
abre-lhe os olhos, com que vê o que não via,
e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge.

A razão natural de toda esta diferença, é porque o tempo tira a novidade às coisas, descobre-lhes os defeitos, enfastia-lhes o gosto, e basta que sejam usadas para não serem as mesmas. Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor?

O mesmo amar é causa de não amar, e o ter amado muito, de amar menos.


Pe. Antônio Vieira

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Porque Mentias?

Por que mentias, leviana e bela,
Se minha face pálida sentias
Queimada pela febre?... e minha vida
Tu vias desmaiar... por que mentias?

Acordei da ilusão! a sós morrendo
Sinto na mocidade as agonias.
Por tua causa desespero e morro...
Leviana sem dó, por que mentias?

Sabe Deus se te amei! sabem as noites
Essa dor que alentei, que tu nutrias!
Sabe este pobre coração que treme
Que a esperança perdeu porque mentias!

Vê minha palidez: a febre lenta...
Este fogo das pálpebras sombrias...
Pousa a mão no meu peito... Eu morro! eu morro!
Leviana sem dó, por que mentias?


Alvares de Azevedo

Poesia completa aqui e recitação do poema aqui.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Soneto da Dor

(Nota: Este soneto também está no livro Rimas do Albano... e como o outro... só é identificado por um número [Soneto IV] )

Mata-me, puro Amor, mas docemente,
Para que eu sinta as dores que sentiste
Naquele dia tenebroso e triste
De suplício implacável e inclemente.

Faze que a dura pena me atormente
E de todo me vença e me conquiste,
Que o peito saudoso não resiste
E o coração cansado já consente.

E como te amei e sempre te amo,
Deixa-me agora padecer contigo
E depois alcançar o eterno ramo.

E, abrindo as asas para o etéreo abrigo,
Divino Amor, escuta que eu te chamo,
Divino Amor, espera que eu te sigo.

José Albano