quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Os Teus Olhos

Gosto de ti 
Não por seres linda ou por seres feia. 
Gosto de ti 
Pela cor indefinida dos teus olhos 
Na qual há uma mistura de todas as cores. 

 Nem sei mesmo se gosto dos teus olhos 
Mas gosto de ti, 
Por seres a dona de tais olhos. 
 
Gosto de ti 
Pela cor garça dos teus olhos ... 
 Nem azuis, nem verdes, nem cinzentos ... 
De uma luz vaga, indefinida, incerta, 

Como incerta e indefinida e vaga 
 É a minha vida 
E a vida de toda a gente 
Na hora que passa. 

 E é por isso, 
Por essa identificação da minha vida 
Com a cor incerta dos teus olhos, 
 Que eu gosto de ti. 

António Gouveia 
(Esse poema pode ser ouvido na voz de Luís Gaspar nesta página)

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

As Palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam;
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade
Poema "As Palavras" in Coração do Dia (1958)

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Sorrow

Father can you hear me?
How have I let you down?
I curse the day that I was born...
And all the sorrow in this world...

Let me take you to the hurting ground
Where all good men are trampled down
Just to settle a bet that could not be won
Between a prideful father and his son
Will you guide me now, for I can't see
A reason for the suffering and this long misery
What if every living soul could be upright and strong
Well, then I do imagine...

There will be Sorrow
Yeah there will be Sorrow
And there will be Sorrow, no more

When all soldiers lay their weapons down
Or when all kings and all queens relinquish their crowns
Or when the only true messiah rescues us from ourselves
It's easy to imagine...

There will be Sorrow
Yeah there will be Sorrow
And there will be Sorrow, no more
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Música do Bad Religion (biografia da banda) - tradução da letra nesta página e vídeo nesta pagina.

PS.: A pintura que ilustra o post é Job, do pintor francês Léon Bonnat, cuja biografia (em inglês) você pode encontrar neste sítio.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Sonhos

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista...

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.


António Gedeão
Poema "Pedra Filosofal''" in Movimento Perpétuo (1956)

domingo, 28 de setembro de 2008

Embriaguem-se

É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.

Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: "É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso". Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.

Baudelaire
(Fonte: Alguma poesia)

(publicado originalment no Béria - a Beh)

domingo, 20 de julho de 2008

Pigmaleão

Nos tempos imemoriais, celibatário em Chipre
Ele, Pigmaleão, isolado pela sua vontade
Esculpiu pelo ardor das suas mãos a mais bela
Das mulheres deste mundo, ela Galatéia
Fruto das suas mãos e dos seus esforços
Vivificada pelo alento condoído dos deuses.
    A noite é quente, é sufocante
    E só há o barulho noturno aqui e acolá
    E eu novamente sozinho, entre tantas ilusões
    E eu só posso te tocar pelas tuas imagens
    Que dançam diante da minha parca visão.

    Lembrar de ti, dos momentos juntos
    Onde estarás, onde estarão teus pensamentos ?
    Será que recordas acaso de mim ?
    Será que posso pensar em olhar pela janela
      Do futuro ?

Mil dias e mil noites, ele Pigmaleão
Com o esforço de suas mãos, produziu e modelou
Cada curva, cada sinuosidade, cada beleza e pureza
E já cansado, e já iludido, apaixonado
Adormeceu entre suas ferramentas
E a deusa compadecida, transformou o mármore
Em carne e osso.

Ele, Pigmaleão de Chipre, apaixonado pela estátua
Agora teria uma mulher real a dedicar o seu afeto
Mas a pergunta que não se cala ao peito do poeta:
A estátua acaso amaria Pigmaleão ?
Ou não poderia dedicar suas doçuras e carícias
A outro, que não se esforçou nem se esmerou
Que desconheceria as origens de Galatéia ?
    Será que olhando para a janela do amanhã
    Posso achar que o amanhã é meu ?
    Otimista, como se nada ou ninguém
    Pudesse me arrancar deste paraíso ?
    Teus pensamentos talvez nem sequer me cogitam
    Eu olho para ti, e teus olhos te desviam para [o] outro.

    E hoje estou aqui só, sozinho, só [sempre]
    Olhando para uma imagem, que insiste em sorrir
    De um passado [futuro ?] esquecido
    De uma mão acenando ao longe
    De um beijo que não insiste em se apagar
    E o nosso destino tornou-se apenas
    Um sonho.
R. S. P.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

The Voice Within



Young girl, don't cry
I'll be right here when your world starts to fall
Young girl, it's all right
Your tears will dry, you'll soon be free to fly

When you're safe inside your room you tend to dream
Of a place where nothing's harder than it seems
No one ever wants or bothers to explain
Of the heartache life can bring and what it means

When there's no one else
Look inside yourself
Like your oldest friend
Just trust the voice within
Then you'll find the strength
That will guide your way
If you will learn to begin
To trust the voice within

Young girl, don't hide
You'll never change if you just run away
Young girl, just hold tight
And soon you're gonna see your brighter day

Now in a world where innocence is quickly claimed
It's so hard to stand your ground when you're so afraid
No one reaches out a hand for you to hold
When you're lost outside look inside to your soul

When there's no one else
Look inside yourself
Like your oldest friend
Just trust the voice within
Then you'll find the strength
That will guide your way
If you will learn to begin
To trust the voice within

Yeah...
Life is a journey
It can take you anywhere you choose to go
As long as you're learning
You'll find all you'll ever need to know

You'll make it
You'll made it
Just don't go forsake it because
No one can stop you
You know that I'm talking to you

When there's no one else
Look inside yourself
Like your oldest friend
Just trust the voice within
Then you'll find the strength
That will guide your way
If you will learn to begin
To trust the voice within

Young girl don't cry
I'll be right here when your world starts to fall...

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Vídeo aqui e letra traduzida nesta página.

(publicado originalment no Béria - a Beh)

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Ligações


Compreendamo-nos sempre...
Eu aqui... e você acolá
Onde moro...
e onde seu travesseiro lhe faz ninho .
Quando é noite aí
também escurece aqui na minha paisagem


O fio invisível que nos liga
nos circunda e nos amarra
e as nossas almas,
antes tão soltas,
tão perdidas de nós mesmos

Agora unidas em um mundo que não vemos
mas que pressentimos...

E que é tão presente nas palavras
que o vento infla
e o tempo não desgata...

(publicado originalment no Béria - a Beh)

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Des-Arquivamento de Blog

Povo do meu coração...

Estou aposentando a "Cruz Sub Rosa"...


O Cruz sub Rosa renasceu das cinzas... como a Fênix...

Por favor... visitem (e comentem) no meu novo blog: Béria - A Beh. E tenham paciência com ele.... ele acabou de nascer.... Ele promete melhorar! :-)

Mas ainda quero que comentem no novo Blog :-P

Beijos procês!

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Katrina

Peço licença ao Álvaro para postar um texto dele aqui no meu blog. (o Texto também pode ser encontrado no Horus, o blog dele)
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Katrina é alguém que mal começou a amar e já teve que aprender a sofrer.
E porque ainda sofre, derrama-se em poemas lacrimais escritos por poetas de priscas eras. Porque, afinal, os poetas servem justamente pra isso. Para falar por nós. Para dizer o que sentimos, mas não sabemos dizer. Ou não queremos dizer com nossas próprias palavras, seja por prudência ou por pudor.

"Meu corpo está sofrendo
é grande a minha dor,
eu vou enlaguescendo...
Rendo-vos mil graças, meu Senhor".

Quando envolta em panos de luto, onde se confunde o negro de seus cabelos, Katrina tem ar de Monastério, com sua antiguidade hierática, por cujos corredores, estreitos e sombrios, ela evoca as lembranças mais sentidas, na esperança de, a qualquer momento, abrir-se a porta de uma cela, e dela surgir o Monje (anjo) que a conduzirá ao Paraíso.

"Conturbam-se meus olhos,
meu mundo perde a cor,
minh´alma está confusa...
Fustigai-me, meu Senhor!"

Mas Katrina sabe que, a essa hora, o Monje está em outro Monastério, para onde o conduziu sua vocação teológica mais autêntica. Que resta, então, a essa moça que o ideal da Justiça trouxe de Veneza, senão resignar-se? Afinal, ela precisa de pouco. Como Lutero, basta-lhe um Livro, de cujas páginas emergem histórias trágicas e amargos profetas.

"Meu Deus, abrí-me as portas
da eterna servidão,
lançai-me vossa cólera
no Templo de Sião!"

Um dia, Katrina irá descobrir que ela é maior do que um livro. Porque é um ser vivo, pulsante, expressão sublime de um processo que se desenvolve por toda a Eternidade, nesse imensurável canteiro de obras da Criação.
Nesse dia, as portas do Monastério se abrirão e ela sairá para cultuar Apolo (o sol), deixando atrás de si o casarão sombrio, com seu livro, monges e profetas.

Alvaro Pacheco Rodrigues