domingo, 5 de abril de 2009

Telepatia

Música do dia: "Telepatia" da Lara Li. Esta música tem versões em várias vozes, entre elas a de Rui Veloso. A minha favorita no entanto, cujo vídeo está neste sítio, é a versão na voz de Rui Drummond e Sofia Barbosa para a sétima rodada do concurso Operação Triunfo 1.

Telepatia, silêncio, calma
Feitiçaria da tua alma
Passo a passo, sem ter medo
Abrímos, soltámos o nosso segredo

E a sorrir devorámos o mundo
Num abraço tão profundo

Telepatia, sem contratempo
Deixei-te um dia, num desalento
E eu sonhava, existia
P'ra sempre, p'ra sempre foi pura poesia

Sem pensar não vi que passavas
Pelo meu corpo não ficavas

E a sorrir devorámos o mundo
Num abraço tão profundo

Telepatia, silêncio, calma
Feitiçaria da tua alma
Telepatia
Telepatia....

Madrigal


Tu já tinhas um nome, e eu não sei
se eras fonte ou brisa ou mar ou flor.
Nos meus versos chamar-te-ei amor.

II

Cantas. E fica a vida suspensa.
É como se um rio cantasse:
em redor é tudo teu;
mas quando cessa o teu canto
o silêncio é todo meu.

Quase Madrigal

Os anjos que prometes são apenas
o rosto triste dos dias desolados.
Eu não prometo nada, sou alegria.
Aceito os anjos nos beijos que me dás,
pondo rosas nos teus dedos descuidados.


Eugénio de Andrade
Poemas "Madrigal" e "Quase Madrigal"

quinta-feira, 12 de março de 2009

Sensível Demais

Música do dia: "Sensível Demais" da Nalanda, que fez parte da trilha da novela Chocolate com Pimenta. Podes ver o vídeo neste sítio.

Hoje eu tive medo
De acordar de um sonho lindo
Garantir, reter, guardar essa esperança
Ando em paraísos, descaminhos, precipícios
Ao seu lado vejo que ainda sou uma criança

Sensível demais. Eu sou um alguém que chora,
Por qualquer lembrança de nós dois
Sensível demais. Você me deixou e agora
Como dominar as emoções?

Quando vem á tona todo amor que esta por dentro
Chamo por teu nome em transmissão de pensamento
Longe a tua casa vejo a luz do quarto acesa
Não tem nada que não vaze que segure essa represa

Sensível demais. Eu sou um alguém que chora,
Por qualquer lembrança de nós dois
Sensível demais. Você me deixou e agora
Como dominar as emoções?


Nalanda

quarta-feira, 11 de março de 2009

Cantos indecisos

    Amo-te e não te vejo;
    Nunca te vi, amor...
Muito embora te abrace minha dor;
O fantasma ao luar do meu desejo...
    Só ele te conhece
E divaga na noite que te esconde;
    Noite sem fim, lá onde
Numa estrela se muda cada preçe.
Só ele te contempla o etéreo rosto,
Moldado em oiro e bruma do sol posto;
    Lágrima sempre acesa
No crepúsculo roxo da tardinha...
É assim que me desejo te advinha
    Em longes de tristeza.
Que o meu desejo é a sombra do meu ser
    Errando, a padecer,
    Lá onde tu existes,
Tão viva que és apenas sentimento,
    Ideal deslumbramento,
E uns grandes olhos negros sempre tristes...

Teixeira de Pascoaes
Poema "XXXIV" do livro Cantos Indecisos (1921)

sexta-feira, 6 de março de 2009

Problema de expressão

Música do dia: "Problema de expressão" da banda portuguesa Clã. Esta música foi lançada no CD Afinidades. O vídeo se encontra nesta página do youtube.


Só pra dizer que te Amo,
Nem sempre encontro o melhor termo,
Nem sempre escolho o melhor modo.

Devia ser como no cinema,
A língua inglesa fica sempre bem
E nunca atraiçoa ninguém.

O teu mundo está tão perto do meu
E o que digo está tão longe,
Como o mar está do céu.

Só pra dizer que te Amo
Não sei porquê este embaraço
Que mais parece que só te estimo.

E até nos momentos em que digo que não quero
E o que sinto por ti são coisas confusas
E até parece que estou a mentir,
As palavras custam a sair,
Não digo o que estou a sentir,
Digo o contrário do que estou a sentir.

O teu mundo está tão perto do meu
E o que digo está tão longe,
Como o mar está do céu.

E é tão difícil dizer amor,
É bem melhor dizê-lo a cantar.
Por isso esta noite, fiz esta canção,
Para resolver o meu problema de expressão,
Pra ficar mais perto, bem mais de perto.
Ficar mais perto, bem mais de perto.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Feels Like Home

Música do dia: "Feels Like Home" da Chantal Kreviazuk, que faz parte da trilha do filme How to Lose a Guy in 10 Days. A tradução está neste sítio e o video está aqui.

Something in your eyes makes me want to lose myself
Makes me want to lose myself in your arms
There's something in your voice
Makes my heart beat fast
Hope this feeling lasts the rest of my life

If you knew how lonely my life has been
And how long I've been so alone
If you knew how I wanted someone to come along
And change my life the way you've done

Feels like home to me
Feels like home to me
Feels like I'm all the way back where I come from

Feels like home to me
Feels like home to me
Feels like I'm all the way back where I belong

A window breaks down a long dark street
And a siren wails in the night
But I'm alright cause I have you here with me
And I can almost see through the dark there's light
If you knew how much this moment means to me
And how long I've waited for your touch
If you knew how happy you are making me
I've never thought I'd love anyone so much

Feels like home to me
Feels like home to me
Feels like I'm all the way back where I come from

Feels like home to me
Feels like home to me
Feels like I'm all the way back where I belong
Feels like I'm all the way back where I belong

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Ser Poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhas de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dize-lo cantando a toda a gente!

Florbela Espanca
Poema "Ser Poeta" in Sonetos Completos (1934)
(Uma versão deste poema cantado por Sara Tavares e Nuno Guerreiro, pode ser ouvida nesta página)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

As Palavras Interditas

Os navios existem e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E abrem-se janelas
mostrando a brancura das cortinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas minhas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
e estas mãos noturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens vivas, desenhadas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

Eugénio de Andrade
Poema "As Palavras Interditas" in As Palavras Interditas (1951)
(Esse poema pode ser ouvido nesta página)

Língua Portuguesa

Última flor do Lácio, inculta e bela,¹
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

Olavo Bilac
Poema "Língua Portuguesa" in Tarde
(Esse post é parte complementar desta reflexão)
____________
1. "A expressão "Última flor do Lácio, inculta e bela" é usada para designar a língua portuguesa, considerada a última das filhas do latim (que nasceu na região do Lácio, na Itália, por isso "flor do Lácio"). O termo inculta fica por conta de todos aqueles que a maltratam ao falar e escrever de forma incorrecta, mas que não a tornam por isto menos bela."

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Os Teus Olhos

Gosto de ti 
Não por seres linda ou por seres feia. 
Gosto de ti 
Pela cor indefinida dos teus olhos 
Na qual há uma mistura de todas as cores. 

 Nem sei mesmo se gosto dos teus olhos 
Mas gosto de ti, 
Por seres a dona de tais olhos. 
 
Gosto de ti 
Pela cor garça dos teus olhos ... 
 Nem azuis, nem verdes, nem cinzentos ... 
De uma luz vaga, indefinida, incerta, 

Como incerta e indefinida e vaga 
 É a minha vida 
E a vida de toda a gente 
Na hora que passa. 

 E é por isso, 
Por essa identificação da minha vida 
Com a cor incerta dos teus olhos, 
 Que eu gosto de ti. 

António Gouveia 
(Esse poema pode ser ouvido na voz de Luís Gaspar nesta página)